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Quem é quem + Pílula Musical #7


2010
11.26

DO AMOR PARA O FESTIVAL VARADOURO


Paralamas do Sucesso e os movimentos Mangue Beat e Tropicália são apenas alguns bons exemplos de que a mistura de elementos diferentes com gêneros que, aparentemente, não dialogam podem dar certo. Portanto, chega a ser estranho o espanto com que algumas pessoas encaram bandas como a carioca Do Amor, que assume o axé music dos anos 80 como uma de suas influências, além do rock, jovem guarda, funk, carnaval, carimbó e outras muitas, muitas coisas mesmo!

Mais do que uma postura irônica, o quarteto sabe que, no fundo, tudo é música e algo interessante pode ser tirado de qualquer tipo de som. “Sendo bom, cativando a gente de alguma forma, causando inquietude ou algum tipo de emoção, tá valendo. Não temos grandes questões quanto a isso. Apenas fazemos o que dá na telha. Seja remetendo a metal, dub ou axé tudo cabe!”, afirma o guitarrista e vocalista Gustavo Benjão ao Correio Braziliense.

O baterista Marcelo Callado e o baixista Ricardo Dias Gomes são integrantes da banda Cê, de Caetano Veloso. Callado já acompanhou Canastra e Lafayette e os Tremendões e Ricardo é tecladista da Brasov. O vocalista e guitarrista Gustavo Benjão e Gabriel Bubu tocaram no Carne de Segunda (Bubu era o baixista da Los Hermanos).

Do Amor também é a banda da cantora Nina Becker e os cantores Nervoso, Lucas Santtana, Rubinho Jacobina e Jonas Sá estão entre os artistas que já contaram com o talento de alguém do grupo.

O disco de estréia intitulado Do Amor, lançado no segundo semestre desse ano, supera qualquer expectativa positivo. Há uma riqueza, uma exuberância criativa que raramente se vê numa banda. É um trabalho repleto de referências dos mais distintos e variados estilos que são depurados nas formas mais insólitas e divertidas.

Não é uma mistura superficial. São universos super variados que nos remetem a infinitos lugares, épocas e mundos reunidos num trabalho absolutamente autoral. Há muita ironia e humor aqui. Digo que não são apenas músicos virtuosos desempenhando uma excepcional performance porque não há frieza e nem soberba. Tocam a música em si, no sentido mais genuíno da coisa. Desconstroem todos esses estilos para no final nos devolver em… música!

Cada frase, cada estilo, cada nota é curtida, transada. Mas sempre com a leveza de quem vai tomar um suco na esquina ou um mate na praia. Há uma saudável maresia apesar de ser um disco super trabalhado e bem acabado. A excelente produção do disco é de Chico Neves (Skank, Los Hermanos, O Rappa). Chico tem o dom de gravar bem. É um verdadeiro mestre jedi do estúdio e conseguiu extrair o supra-sumo da banda que se revela totalmente em todos os momentos. Dá gosto de ouvir. Enfim, este disco é um clássico desde já. É para escutar, reescutar e curtir sempre.

o release foi baseado nos textos de Pedro Sá e do jornalista Pedro Brandt em matéria para o jornal Correio Braziliense

A VISÃO DO ETERNO HERMANO RODRIGO AMANTE SOBRE O DISCO DA BANDA DO AMOR

O disco Do Amor é um lembrete de toda beleza afundada pelo medo de não ser cool, de não caber no dial, de não estar na moda. Do Amor é uma dose caprichada da alegria sufocada pelo desejo de ser contundente e profundo, um gole de todo suingue esquecido pela vontade de ser global, uma posta de todo tesão e inteligência dos dedos, sabedoria dos pés. Esse é um disco afirmativo, não é um disco-resposta, reacionário, é um disco-pergunta.

Ele chega chegando, dança dançando e não quer nem saber. Pra quem não tem a menor idéia de como é o som, é como se os Talking Heads fossem de Belém do Pará, criados no Rio, de fárias no Brooklyn. É feijoada com Tapioca e Steinhegger pra amaciar.

Pra quem não entendeu bem, (ou nunca tomou Steinhegger – sorte a sua) sabe quando você vê uma modelo, alta, magra, toda vestida no esquema, maquiada e tudo mais, aquele glamour?

Pois Do Amor não tem nada a ver com isso, se fosse uma mulher seria a verdadeira gostosa, a moça de short na calçada da Visconde de Bonfim, cabelo vistoso, pele brozeada, aquela alegria de viver, aquele viço. Do Amor é o tesão sem o qual não há solução.

Para ouvir: http://www.myspace.com/doamor

Para ver e ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=3c9WxezR7O8

SAULO DUARTE E A UNIDADE: UM CONJUNTO DE BONS MOTIVOS PARA SE ACREDITAR NA NOVA MÚSICA BRASILEIRA

escrito por Rogério Duarte

Ainda bem que é difícil rotular as canções de Saulo Duarte e a Unidade: com arranjos e letras simples! O compositor nascido no Pará e radicado por aí, hoje morando em São Paulo, não se preocupa com classificações – preocupa-se com a sinceridade de sua expressão musical e poética e com a consistência de sua proposta, todas elas amplificadas e sintetizadas pela banda A Unidade.

Com Klaus Sena, no baixo, João Leão, nos teclados e Beto Gibbs, na bateria, além do próprio Saulo, na voz e nas guitarras, a banda potencializa nos arranjos o universo subjetivo de Saulo Duarte, que, na maioria das vezes, compõe as canções no violão. É nas letras do compositor que estão o núcleo de sua obra – em sua maioria, elas contêm fragmentos esparsos das experiências pessoais dele, em que as celebrações da vida e as desilusões amorosas se misturam à cidade e aos acontecimentos da ordem do dia.

A sensibilidade do compositor o faz permeável a tudo que lhe acontece ao redor, como se ele fosse uma espécie de captador sensível das pessoas e do mundo. Tudo isso em letras simples, com a vontade de dizer o mais profundo da forma mais fácil, sem pretensão. De certa maneira, todo esse universo pessoal está sintetizado nas composições em voz e violão, e cabe à Unidade amplificá-lo.

Os arranjos da banda alcançam sonoridades que dialogam com a festividade da Jovem Guarda dos anos 60, do Roberto Carlos romântico e quase psicodélico dos 70 e do Jorge Ben Jor mais groovado, além de referências ao carimbó, à guitarrada e ao brega – que deve ser entendido, aqui, como canção romântica, sem o sentido pejorativo que muitas vezes se dá àquelas obras que versam sobre as faltas sentidas e cometidas.

Mas as influências não aprisionam Saulo e a Unidade: o que há de presente nas composições são experiências vividas no hoje – é aí que elas ganham força, porque Saulo está em sintonia com as pessoas e espaços de seu tempo. A Rua Augusta, a Barra Funda, a Cardeal Arcoverde e a Teodoro Sampaio não são apenas cenários – também são personagens, cujos ritmos e frequentadores interferem diretamente nas canções, dando-lhes cores urbanas e contemporâneas.

No panorama da nova geração da música brasileira, Saulo Duarte e a Unidade se destacam por evitar o uso da técnica pela técnica: o espetáculo e a verdade de suas canções estão no suor e no sorriso dos músicos, na sinceridade das letras e na simplicidade dos arranjos. Saulo Duarte é um portador de canções, um intérprete de si mesmo, com a certeza de que é nas manifestações mais específicas e subjetivas que estão os conteúdos mais universais

Acesse http://www.myspace.com/sauloduarte

LUCAS SANTTANA: UM CALDEIRÃO SONORO POR SI SÓ

Lucas Santtana é o tipo de artista que é difícil catalogar. Ao mesmo tempo que seus discos e suas composições tem uma ligação com a tradição da MPB, elas absorvem influências que vão do afrobeat ao dance hall, passando pelo dub, música eletrônica, funk arioca e outros. E aí não tem jeito, estica ainda mais a linha evolutiva da música brasileira para um outro universo, um novo lado.

Entretanto, ele prefere fugir dos rótulos. “Não classifico meu som. É uma mistura de muitas coisas”, esquiva-se o músico, cujo disco tem uma sonoridade muito próxima a de Papo Macaco, primeiro CD de Davi Moraes, outro novo-baiano (ele é carioca, mas filho do baianíssimo Moraes Moreira) que desponta na música brasileira.

“Há uma tentativa de rotular, explicar o nosso som. Tem uma geração de pessoas há algum tempo fazendo um trabalho bom, de qualidade, que não se encaixa em rótulos. Me incluo nessa cena contemporânea que está acontecendo, que não está preocupada em vender milhões, mas apenas em mostrar o seu trabalho”, diz Lucas.

A explicação para tantas influências vai além do fato de Lucas ser soteropolitano e ter passado 23 de seus 32 anos na Bahia (os últimos nove ele passou no Rio, onde mora atualmente). O músico começou a carreira como flautista na escola de música da Universidade Federal da Bahia, ele já tocou instrumentos diversos com artistas dos mais variados gêneros, desde a flauta e o sax, nas bandas de Gerênimo e Gilberto Gil (com quem gravou o álbum Unplugged) e no disco Afrociberdelia, de Chico Science, até o violão e a guitarra no disco Memórias, Crônicas e Declarações de Amor de Marisa Monte.

Como compositor, Lucas tem músicas gravadas por Daniela Mercury (Domingo no Candeal), Fernanda Abreu (Fatos e Fotos), Marisa Monte (Abololô), Katia B (Tanto Faz Para o Amor) e Davi Moraes (Ilê é Bom, Abra A Boca e Favela), entre outros.

Eletro Ben Dodô, o primeiro álbum solo de Lucas Santtana, produzido pelo renomado produtor Chico Neves (Los Hermanos, Skank e O Rappa) e mixado no estúdio Realworld de Peter Gabriel, recebeu críticas elogiosas no Brasil e em importantes publicações no mundo da música: Village Voice, Down Beat e o Chicago Tribune nos Estudos Unidos, Le monde e Vibrations na França e Latino e Esquire no Japão. Tanta receptividade gerou vários shows no exterior, principalmente na Europa. O disco também está na seleta lista dos dez melhores CDs independentes do ano de 2000 pelo The New York Times.

Em julho de 2003 saiu o segundo álbum intitulado Parada de Lucas, que é dedicado ao geógrafo Milton Santos. Assim como o primeiro, o disco recebeu elogios dos principais jornais e revistas do Brasil e mais uma vez ganhou matéria no The New york Times. Ele participou ainda da trilha sonora do filme Deus é Brasileiro de Cacá Diegues e compôs a trilha da peça O Bispo do ator João Miguel.

Em 2006 veio o CD 3 sessions in a greenhouse acompanhado da banda Seleção Natural e, juntamente com o novo trabalho, Lucas transforma seu selo musical Diginóis Records em um site/blogue/ponto de encontro: www.diginois.com.br. Lá é possível baixar gratuitamente o álbum completo e as faixas abertas do disco para remixar e também enviar esses remixes para o site. Desde o lançamento, o grupo fez shows no encerramento do Tim Percpan, participaram do Festival Riocenacontemporânea, Festival Indie Rock no Circo Voador, Festival MOLA e do programa Som Brasil em homenagem ao grande Noel Rosa na TV Globo.

Em dois anos e meio na internet o site já recebeu mais de 90 mil visitas e mais de 12 mil downloads das músicas e mesmo assim as 2 mil cópias de 3 sessions in a greenhouse esgotaram em sete meses. Aí vieram mais críticas do The New York Times, Downbeat, The Beat, Revista Veja, O Globo, Estadão e outros.

Um novo desafio apareceu em julho de 2008, Lucas atacou de diretor musical de um show em homenagem a Tropicália realizado no Sesc Pompéia que contou com a ilustre participação de nada menos do que Tom Zé. No mês ele criou a trilha sonora da exposição que inaugurou o Museu do Meio Ambiente no Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

O desempenho anterior o levou novamente para a direção musical do projeto Trilhando com o diretor Bruno Barreto e Gal Costa para o Sesc Pompéia em abril de 2009, que misturou música e cinema. Em julho do mesmo ano lançou sua mais recente obra, o quarto álbum Sem Nostalgia. Assim como os três primeiros discos, Lucas Santtana continua suas alquimias sonoras tendo a canção como centro, mas sobrepondo a ela diversas texturas musicais.

escrito com base no release oficial e de entrevista de Lucas Santtana ao portal Universo Musical

TOM ZÉ FALA SOBRE O AMIGO LUCAS SANTTANA

Na verdade, existem dois tus: um tu próximo e que mal se despregou do eu, e um tu mais longe, quase ele. Um forte não-eu. Lucas Santtana, por exemplo, está tão longe de mim que sua existência é minha morte. Sucessivas mortes o permitem, a esse tu-lá. Ouvindo neste cedê os hinos que foram feitos com palavras de rua, de areia, de lençóis, anoto que não são hinos da alma, porque as últimas morreram no começo de 1900.

Depois dos 13, quando Stravinsky assentou a Sagração, quer dizer, nos 14, já só lhes conhecemos as lápides. Uma delas nos contou a verdade: aqui jaz a última alma. Depois dessa, o homem começou a ser erigido sobre o ritmo. A humanidade não saiu perdendo, porque o ritmo não tem pecado, já que é um deus desidratado, e Deus tudo acolhe. Aqui são Lucas e sua geração, seus amigos e parceiros. Mas, de que útero eles nasceram?…

Em 1949, morreu o avô deles, uma Bahiaaldeia-incubadeira, faísca inculta e rica que em si mesma não se reconhecia: nesse ano um negro doutor, formado em Medicina, foi impedido de entrar no Clube Social Bahiano de Tênis. O féretro chamou-se Auto da Glória e Graça da Bahia. Espichou-se pela Avenida Sete (e ao longo dela), entre a piedade, onde eu assisti, era dezembro, com a cabeça metida entre os cotovelos do povo adulto, perfilado em corredor polonês – ia até a Ladeira da Barra.

O carnavalesco (reclame a primazia) do sepultamento foi o professor Walter Ruy. Aquilo tudo a pés. Os funerais, que hoje terminaram em Lucas, prolongaram-se até esta madrugada, em diversos cordões de umbigo.

Por dentro desses cordões latejaram os Filhos de Gandhi, Seminários de Música, Escola de Teatro, Ilê Aiyê, Teatro Vila Velha de João Augusto, tropicália e uma canção chamada “Trio Elétrico”. Alguns carnavalescos, chefiados pelo Dr. Edgar Santos: Koellreutter, Widmer, Tudor, Cage, Mãe menininha. Outros carnavalescos, chefiados pelo menino preto de Dr. Moreira: Seu Rocha do Cinema Novo, o filho de Seu everton, o irmão de Irene, Conselheiro Cravo, Jorge Cacau e João Augusto Vila Velha. Ao todo, eram sete cordões na avenida. Eram sete cordões umbilicais.

E aí eles uteraram. De forma que por tal e tanto fica dito que Lucas não começam onde nós começamos nem onde nós terminamos. Não começa nunca. A minha geração entrou na música para-quedando no bonde em disparada, incomodando muita gente que reclamou e se queixou. Eles, não: Lucas nascem na música. De uma polissemia-polimicrotonalsemia, pra ser exato – de cordões de umbigo que se intercomunicam. Lucas e seus parceiros.

Observações ligeiras: Você conhece o dono do disco pelo instrumento que ressai na mixagem. O guitarrista, o baixista, ou o cantor… Aqui neste de Lucas Santtana, o dono do CD é Eros. Dizem – no caso, a Bíblia -, que o universo começou com o som: no princípio era o som ; livro tal, versículo tanto. Aqui, o artista começa mudando a Bíblia: primeiro é o ritmo. São Lucas, capítulo2/4, versículo 4/4. E ritmo é o ventrículo direito de Eros. Ritmo é a oração que Eros reza de manhã. Não vamos exagerar no argumento para não perder a causa. Mas aqui há um artista. Habemus.

Para ouvir o mundo de Lucas Santtana: http://www.myspace.com/santtana

Som Brasil em homenagem ao mestre Noel Rosa com participação de Lucas Santtana:
http://www.youtube.com/watch?v=Y3KBE8RbmAw

Saulo Duarte – Mistério no olhar

El Hombre Misterioso – La luna Huston Texas