Feliz Festival Varadouro 2010!

2011
01.05

Em gênero, número e grau o Festival Varadouro atingiu o mais alto nível em 2010. Bandas dos mais diversos estilos passaram pelos palcos cachoeira e bom destino. Bandas com mulheres na formação, indígenas, argentinos, peruanos, acreanos, sulistas, nortistas… a diversidade é grande e os números também. Mais de 20 mil pessoas. Mais de 100 bandas, jornalistas, produtores e ativistas culturais. A sexta edição elevou e consolidou de vez o festival em alto grau organização, qualidade e diversidade musical e o que é melhor: satisfação total do público presente.

O desconhecido gera curiosidade ou descontentamento. No quesito escalação das bandas o desconhecido foi surpreendente. Gaby Amarantos, com seu tecnomelody do Pará, fez com que quem tinha torcido o nariz, jogasse a mãozinha pra cima e dançasse ao som contagiante da paraense cheia de energia. Saulo Duarte e a unidade mostrou ao público um bom gosto em timbres, muita criatividade, além de camisas bonitas. Outra surpresa boa vinda do estado do Pará. Aliás, o terceiro paraense não ficou por menos: Juca Culatra e o power Trio. Como não se encantar com o carisma e energia embalado ao som do reggae e chuva? Ela veio e não intimidou os paraibanos do Cabruêra, muito menos o público que se rendeu à grande roda para abençoar o primeiro dia do festival.

O que dizer do metal da Survive que agrada até quem não gosta de metal? Dos Hermanos mascarados Los Siniestros? Da estréia de Ana e os Lobos ao lado da multifacetada e respeitada Caldo de Piaba? Da Orquestra Guitarrística Camarones, do Rio Grande do Norte, que trouxe o termo orquestra pra outro nível onde sonoridade, elegância e charme se juntam às notas e fazem os pés quererem balançar? Da energia melancólica e nostálgica com sotaque gaúcho do Pública? Do balanço maneiro, carimbó divertido Do Amor? Da canção e da emoção amazônica cantada como se fosse hino dos Los Porongas? Da energia e pegada, mistura de sons e ritmos dos peruanos do El Hombre Misterioso? Dos Tambores, cânticos, barulhinhos, sons da floresta em uma atmosfera verde do índio Shaneiho Yawanawa, no palco cachoeira? Do compasso do samba, do swing, da criatividade carioca de Lucas Santtana? Da psicodelia divertida, do universo sonoro, da atmosfera setentista, eletrônica e envolvente, do charme e da estética vinda do extremo norte do Brasil, os amapaenses do Mini Box Lunar? Do guitar hero acreano Charles Sampaio junto ao performático e talentoso vocalista Ronnie Blues e o drumm hero Paulinho nobre, impossível não mencionar a qualidade e energia do regional com o contemporâneo, da floresta com a cidade, tudo traduzido em som da mais alta qualidade: Mapinguari Blues. Fechando a tampa do caldeirão musical cheio até o caroço, Bnegão e os Seletores de Frequência. Na ancestralidade, misturada com o funk, samba, rapnrollragga.

Múltiplo. Diverso. Polivalente. Democrático. Acessível. Multifacetado. Ousado e envolvente. Quem tiver mais palavras pra descrever o festival, que fique à vontade.

O Festival Varadouro agradece à todas as bandas que ajudaram a abrilhantar os caminhos no Acre, à equipe de produção, aos parceiros, à Petrobrás e ao Governo do Estado do Acre pelo patrocínio e ao público que só aumenta a vontade de continuar fazendo cada vez melhor o seu, o nosso festival de música.

Um ótimo 2011!

Cobertura Colaborativa Festival Varadouro – Mapinguari Blues (AC) e BNegão & Seletores de Freqüência (RJ)

2010
12.11

OLHA A MATINTA PEREIRA, OLHA O SACI PERERÊ… IH, OLHA SÓ A MAPINGUARI BLUES!

Essa foi de longe a melhor performance desse mito rural-urbano-sonoro. Era bicho do mato com bicho urbano e um bailado que ninguém queria arredar o pé. A execução das músicas convidava quem assistia a pegar sua guitarra imaginária para cair junto na gandaia. Foi tipo sessão descarrego total… E a essência transparente de Ronnie Blues (voz) embalou o público numa transa cheia de elementos regionais, com rock n’ roll, reggae e, claro, a blueseira-made-in-Acre já tradicional.

Repetiram o mesmo desempenho invejável do álbum Mapinguari Blues – Ao Vivo (lançado em 2010), fazendo deles a primeira banda acreana a gravar nesse formato, aqui mesmo no estado, mais precisamente no palco da Usina de Arte. E como avareza não pode… Logo nenhum dos sucessos foi negado ao povo. Rapaz, era festa na floresta, impossível não curtir e se emocionar.

A prata da casa mostrou-se, explorou as possibilidades e os limites de uma apresentação arrebatadora e tão fiel as suas raízes. Apegada sempre ao nosso Acre querido que não cansa de produzir peças únicas para todo o Brasil. A nossa terrinha de João Donato, Glória Perez, Armando Nogueira, Chico Mendes e tantos outros, abençoa os filhos da Mapinguari Blues e eles, por sua vez, acatam o chamado e judiam mesmo da gente de tanto orgulho e talento. Foi uma viagem!

_________________________________________________

ATÉ O CAROÇO COM BNEGÃO & SELETORES DE FREQÜÊNCIA

O que faz o brasil, Brasil? Já entoava o questionamento do antropólogo brasileiro Roberto DaMatta. Bem, nosso país tem justamente de mais bonito a mistura que vai das raças e chega até a música. Isso é um pouco do que faz o Brasil, a sabedoria do experimentar de tudo um pouco, de ser o último numa fila de banco que tem na espera japonês, holandês, espanhol, indígena, africano e francês. Por isso nada melhor do que inventar, do que colocar metais numa batida de rap, misturando com samba, o funk carioca, o velho rock n’ roll, uma pitada de jazz aqui e dub-ragga-mix para finalizar.

O que fechou a tampa do último dia do Varadouro 2010 não foi apenas uma interligação de gêneros e ritmos, foi a sensacional música brasileira do preto, do branco e do escambau. Foi a sinergia escrota da realidade das ruas e da malimolência do povão que insere eu, tu e eles. Neguinho, playboy, marcha-lenta, popozuda, o baile todo. Isso que fez BNegão & Seletores de Freqüência entoando A Verdadeira Dança do Patinho, Funk (Até o Caroço) e a nostálgica pula-pula Legalize Já (Planet Hemp), que foi tantas vezes puxada pela multidão nos memoráveis shows que passaram pela Concha Acústica Jorge Nazaré.

Nem era preciso cerrar os olhos para sentir o feeling poderoso do público que nunca esteve tão perto do palco, sugando a música para a caixola, a mensagem das letras e querendo (pelamord’Deus) que aquilo não acabasse nunca! Foi um daqueles momentos que a gente vai sentar numa roda de amigos para relembrar cada detalhe enquanto toma a-que-la cerveja estupidamente gelada. Foi um amor de inverno amazônico e uma experiência surrealista que avisava: o melhor ficou para o final, moçada! Salve os ancestrais, como gosta de dizer BNegão, e um salve a todos os seletores de freqüência! Um beijo também especial para o underground e a cultura que não segrega e traz para junto, valeu!

Fotos da sexta edição do Festival Varadouro aqui

André Lima, jornalista acreano e vocalista da banda Capuccino Jack

Cobertura Colaborativa Festival Varadouro – Mini Box Lunar

2010
12.06

Som pra viagem


Em um festival de múltiplos sotaques e ritmos a apresentação da Mini Box Lunar se destaca. Certamente após apresentações memoráveis de bandas que trouxeram grandes misturas e quebras de fronteiras entre os diversos gêneros musicais, como Do Amor, Juca Culatra e Power Trio e Camarones Orquestra Guitarrística, o som lisérgico da banda do Amapá tinha uma grande responsabilidade em trazer mais uma proposta nessa geléia geral de sons brasileiros, e ficou claro nessa apresentação no Varadouro que a banda segura a responsa.

Como não pensar assim ao ouvir músicas como “Disco do Odair”, um rock com brega “de raiz”, ou as marchinhas psicodélicas “Amarelasse” e “Cabine 103”? A Mini Box Lunar é capaz de misturar tudo isso e embalar o público, um caso a parte em apresentações da banda, afinal quem não conhece entra num transe estático, curioso com as provocações da banda, e quem já conhece entra em um transe extático, viajando nas diversas possibilidades estéticas.


Mini Box Lunar tem uma sintonia única entre seus integrantes, da cozinha aos vocais, contando com a presença “onipresente” dos teclados, órgão, moog e sintetizadores de Otto Ramos e transmite isso para a galera que acompanha os seus shows, envolvendo o público numa grande viagem nas mais diversas sonoridades possíveis de se extrair desses elementos e desses ritmos que fazem parte das raízes brasileiras.

O que é o som da Mini Box Lunar? Ainda sem definições, é um som bom pra viajar.

Allan Gomes, do Coletivo Difusão (AM)

Fotos de Renato Reis